Sentindo, em voz alta
“Tu não és o que te aconteceu.” Ouço esta frase muitas vezes.
“Tu não és o que te aconteceu.”
Ouço esta frase muitas vezes.
A intenção é clara:
desidentificar o Ser do Acontecimento.
Mas há algo que não pode ser ignorado:
o ser constrói-se a partir do vivido.
Quando alguém chega à consulta, chega identificado com a sua história.
Foi ela que organizou o corpo, as emoções, as defesas, as relações.
Um acontecimento, quando repetido da mesma forma,
deixa de ser apenas experiência e passa a estruturar identidade.
Dizer “tu não és isso” cedo demais
não liberta — exclui.
Porque a pessoa tem sido isso.
Durante anos.
Às vezes durante uma vida inteira.
Uma formulação mais verdadeira seria:
"Tu és o que te aconteceu — e também és mais do que isso."
“Isto aconteceu.
Isto organizou-me.
Mas não me define por inteiro.”
Não acredito que a cura nasça da negação do que fui (por ter acreditado ser, ainda que identificando-me com o acontecimento),
mas da possibilidade de responder diferente a partir de agora, acolhendo tudo o que fui e vivi.